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Agenda de desenvolvimento sustentável trava pela diferença

De um lado uma ideia de mundo formado pela diferença e os resultados das multiplicidades das diferenças, gerando um devir constituinte da realidade em diversos níveis. Se pensamos nos processos políticos, por exemplo, posições criam e se alimentam das diferenças que geram no próprio processo do que é o trabalho de criar e defender tais posíções.

Do outro lado – por mais que seja aconselhado evitar entender o tabuleiro geopolítico internacional de forma simplista ou dicotômica, há nitidamente um outro lado nas negociações do financiamento para o desenvolvimento e da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015 – há o reforço dos padrões estabelecidos em outro tempo e espaço político e linguístico, consistentemente usado como argumento para finalizar qualquer diálogo sobre algum elemento que encaminhe à democratização econômica ou mudança da governança multilateral da arquitetura financeira internacional.

Assim como na FpD3 foi recusada a Comissão Intergovernamental de Cooperação Tributária, nas discussões dos ODS fica nítido o esforço em retirar do texto político a própria noção e menção de diferença. O conceito de responsabilidades comuns mas diferenciadas – CBDR –, que foi arado para a margem do terreno das discussões da FpD3, mas que foi deixado para depois, que é o agora, é o assunto mais delicado da negociação em sua semana final. O G77 cedeu em Addis Ababa, vai ceder outra vez em New York? Agora não há mais o apelo político do país anfitrião, mas continua havendo pressão política dos poderes estabelecidos.

Voltamos à quebra-de-braço diplomática que entrou hoje (ontem) em sua segunda semana de conclusão de negociações do texto a ser assinado por governantes de alto nível de todos os países na segunda metade de setembro.

Ao que parece, a estratégia de imposição dos países desenvolvidos continua firme, com os Estados Unidos e Canadá movendo como um rolo compressor. “Há excessiva repetição da expressão diferenciada“, reclama os EUA. Prontamente concordado pela União Europeia e Austrália – como diria um certo filósofo contemporâneo, “os suspeitos de sempre.”

Hoje, e durante o resto da semana, em três turnos, quem quiser pode acompanhar o jogo político-diplomático pelo canal web das Nações Unidas: webtv.un.org (as negociações são em inglês. Português não é língua oficial da ONU, mas há tradução para espanhol, francês, árabe e russo.)

Os países tem até sexta-feira para concordarem com um texto. Hoje (ontem) a China disse que já não aguenta mais depois de dois anos de negociações e está pronta a negociar, com uma visão macro, e aceitar princípios gerais. O Brasil insiste sobre o reconhecimento do aspecto histórico e sua importância para reverter as assimetrias globais através de CBDR. Assim como apoiado pelo G77+China. E justamente aí se encontra o entrave a ser solucionado até sexta-feira.

Conseguirão os embaixadores David Donoghue da Irlanda e Macharia Kamau do Quênia, co-facilitadores da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, navegar o entendimento de visões tão diversas e construírem uma hermenêutica que seja aceitável, sem reservas, por todos na sala? Missão impossível, mas compatível com o processo e seus desdobramentos diários. A seguir, narrativas dos próximos capítulos.

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Claudio Fernandes | economista da Gestos – soropositividade, comunicação e gênero – representa a Abong e a Campanha TTF Brasil no acompanhamento e incidência política da Agenda Pós-2015 e FpD3.

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